8.12.04
Conferência Sobre a Língua Portuguesa
A Fundação Gulbenkian patrocinou, em boa hora, uma Conferência sobre um tema que, de há muito, anda esquecido das preocupações dos povos que usam o Português como língua de cultura e de Estado. Os dois dias que lhe foram dedicados, 6 e 7 deste mês, parecem extraordinariamente escassos para o trabalho que se torna necessário realizar. Ainda assim, dirão os bem intencionados, serão melhor que nada.
Também a RTP 1, no seu programa de debate semanal, «Prós e Contras», quis assinalar o acontecimento, anteontem, 2ª feira, escolhendo o mesmo tema para debate.
Logo no painel de participantes não estiveram inspirados, visto que nele não figurava um único verdadeiro estudioso da Língua, com trabalho significativo publicado. Alguns habituais lá se encontravam, desde o infalível Professor Eduardo Prado Coelho, que sempre aparece nestes certames mediáticos, até aos representantes das Instituições patrocinantes da Conferência, todos eles sem contribuições de relevo para o fenómeno linguístico, a não ser na dita qualidade representante.
Apenas um convidado da plateia fez uma intervenção interessante sobre a linguagem utilizada pelos jovens nas mensagens dos telemóveis. Mas mesmo aqui afloraram equívocos perigosos, porque muitos destes jovens não dominam ainda a norma da língua e, com aquela prática encorajada, podem ser levados a concluir que se trata de uma opção de escrita, legítima nas demais circunstâncias. Se ninguém os alertar, nem lhes moderar essa tendência, acabarão a praticar uma linguagem empobrecida, defeituosa e amputada, fora dos recursos do idioma, que nunca conhecerão.
Ninguém abordou com atenção a acção perniciosa dos jornalistas e locutores da Televisão, sobretudo, muito mais devastadora do que a dos seus colegas da Imprensa escrita, que, no entanto, não é despicienda, quando desrespeitam ostensivamente regras básicas gramaticais, como se estas tivessem já sido abolidas, só porque o seu cumprimento não é generalizado.
Deveria o esforço normativo concentrar-se principalmente na televisão, a começar pela pronunciação correcta das palavras, coisa que parece ocioso apontar, porque deveria ser obrigação corrente e resultar de um treino prévio aturado, até que os candidatos a locutores começassem a intervir na comunicação.
Deveriam os responsáveis da sua preparação insistir na boa dicção e no ritmo adequado de locução para que se entendesse claramente o que dizem e simultaneamente fazerem escola, criando um padrão normativo, como acontece nas grandes cadeias de comunicação, a BBC, por exemplo.
Já quando eu aprendi inglês, há uns aninhos, no Instituto Britânico, em Lisboa, os professores aconselhavam todos os alunos a ouvirem regularmente aquela estação, prestando particular atenção à articulação das palavras e à entoação que lhes davam os locutores, considerados como praticando um paradigma de língua a seguir por quem pretendesse aprender inglês britânico correcto. Por isso nos recomendavam a aquisição de um rádio, com sintonia de ondas curtas, para que ouvíssemos as emissões da BBC-World Service, como se de um elemento de estudo auxiliar se tratasse, tal como o dicionário ou a gramática.
Parece até absurdo que não haja essa mesma preocupação na TV portuguesa e tanto profissional revele tantas deficiências. Custaria certamente pouco, em face dos benefícios colhidos, contratar um provedor da língua portuguesa, que se encarregasse de corrigir os erros detectados nas intervenções dos locutores. A pouco e pouco, a TV estatal seria vista como um paradigma, servindo de referência a todas as outras estações e «educando o povo», função que poderia muito bem desempenhar, sem complexos de o assumir, neste âmbito.
De contrário, o que sucede é que ela deseduca o mesmo povo. E não cabe dizer que não é a educação a sua função primordial, porque se se recusar a esse desígnio, acabará por realizar o seu oposto. A escola fará o seu papel, mas a TV atinge todas as gerações, em simultâneo e a todo o instante, logo não se deverá prescindir da sua própria utilidade formativa. Não o fazer, por prurido de extrema isenção, é errado e constitui mais um enorme desperdício de meios que, com frequência, vemos praticar.
Ainda a este propósito, na 2ª feira, o jornal «Público» trazia uma frase atribuída a um participante na Conferência da Gulbenkian, professor universitário, autor de uma das comunicações apresentadas, que me deixou estupefacto.
Dizia ele, segundo a transcrição do jornal, que a crioulização da língua portuguesa era não só inevitável, como também enriquecedora. Não sei, evidentemente, o contexto em que o dito professor, Victor Aguiar e Silva, suponho, de seu nome, o terá dito e qual a sua intenção, mas julgo que, se não justificou as circunstâncias em que considera válida aquela afirmação, ajudou certamente a propagar a confusão.
A crioulização da Língua Portuguesa, em Portugal, a ocorrer, terá de ser combatida, por não ter justificação, dispondo o país de meios suficientes para impor uma norma escorreita, sem ter de aceitar deturpações, compreensíveis embora em povos não escolarizados, totalmente inaceitáveis em zonas do mundo em que se exigem níveis crescentes de escolaridade obrigatória, a que devem corresponder conteúdos de aprendizagem reais, ou não valeria a pena prolongar ou impor sequer a obrigatoriedade escolar.
Os erros e as corrupções da Língua não se eliminam aperfilhando-os. Pode ser mais cómodo para os praticantes da norma ou mais simpático para os que laboram no erro, mas não é uma resposta lógica, nem aceitável.
Mesmo para as comunidades africanas que aqui vivem, o esforço da correcta aprendizagem da Língua é sumamente vantajoso, porque promotor da sua integração. Só têm a ganhar falando um português padrão, correcto, depurado de erros. Isto não significa que deixem de utilizar os diversos crioulos, dentro de casa, entre os seus. Podem, evidentemente, continuar a fazê-lo, embora sem descurar a aprendizagem do português, para seu próprio benefício. Ou também será politicamente incorrecto defender isto ?
Ademais, quando se encontra um erro, linguístico ou outro, quando se reconhece o erro, o único caminho válido e sadio a tomar é corrigi-lo, não legalizá-lo ou admiti-lo como variante válida da norma correspondente, com o argumento de que a maioria já o pratica e não se consegue impor a correcção. É este mais um dos defeitos do pensamento moderno, politicamente correcto, que foge de lutar pelo cumprimento das normas. É sempre mais «popular» e cómodo absolver o erro, relativizá-lo, e tratá-lo em pé de igualdade com a sua correcção.
Vejam no que daria esta atitude se aplicada a uma disciplina científica, a Matemática, por exemplo. Será por isso que ela é tão «impopular», por não admitir sempre várias soluções para um problema e não contemporizar com o erro ?
Será a Matemática contrária ao «espírito democrático» ?
Será mesmo «reaccionária» ou «elitista» ou «conservadora» ou «dogmática» ?
Há aqui muitos equívocos a desfazer.
Bem sabemos que a Língua não se rege por critérios idênticos aos das disciplinas científicas e vai evoluindo incorporando também corrupções, mas não queiramos, por isso, desprezar o respeito das normas, das regras gramaticais, sob pena de instaurarmos o caos, deturpando rapidamente o idioma.
Do Latim ao Português se chegou, ao fim de muitas centúrias, até se estabelecer um idioma culto, com gramática própria, estabilizada. Não queiramos, no espaço de uma ou duas gerações, desfigurar o idioma, só porque não estamos para nos ralar com a imposição da Norma. Não nos antecipemos ao trabalho do tempo, que não tem de ser necessariamente favorável à corrupção.
E, sobretudo, que esta não aconteça por desleixo. Para relembrar, a propósito, um nosso clássico, António Ferreira, diria que se ela, a Língua Portuguesa, está agora :
................
baixa e sem louvor,
culpa é dos que a mal exercitaram,
esquecimento nosso e desamor.
Este tema é muito interessante e levaria longo tempo a debater, mesmo por pessoas não especialistas na matéria, com formação académica em área diversa. Porém, a Língua é de todos ; é um elemento da nossa cidadania e, nesta qualidade, todos somos responsáveis pela sua «saúde».
É pena que os especialistas não intervenham mais, fora dos redutos académicos. A situação de franca bandalheira em que caiu o uso do português é verdadeiramente deplorável, de há muitos anos para cá, e não cessa de piorar, o que é ainda mais preocupante.
Quase todo o bicho careta julga que se promove enxameando o discurso de termos estrangeiros, ingleses, por regra, muitas vezes com a desculpa de que não existem termos equivalentes no português. Só raramente isso é verdade, na maior parte delas, o que acontece é que as pessoas desconhecem os recursos da sua língua-mãe ou nem fazem um esforço de procurar as traduções correctas.
Trata-se de puro desleixo, aliado a fútil exibicionismo. As entidades responsáveis deveriam igualmente contrariar a mania de dar nomes estrangeiros a estabelecimentos comerciais, onde a presunção é evidente e deslocada.
De um momento para o outro, os Centros Comerciais passaram a Shopping Centers, os testes ou provas de condução passaram a test drives, os prazos ou calendários ou datas ou distribuição de tempo, a timimgs e outras futilidades pretensiosas que conspurcam a nossa linguagem e, acima de tudo, não se justificam, porque são quase sempre supérfluas, substituíveis com maior ou menor esforço.
Ninguém parece preocupar-se com isto, como aliás, pouca gente se preocupa com aquilo que representa a nossa identidade cultural. A nossa rádio quase não transmite música portuguesa, os estabelecimentos de diversão só põem música anglo-americana, os jovens já só se dignam cantar em inglês, americano, na sua maior parte, que, aliás, não dominam, como não dominam o próprio português, apesar de o «terem estudado» anos a fio. Muitos acabam licenciaturas sem dominarem a regência verbal. Será isto normal e inelutável ?
Vejam-se os erros frequentes no modo imperativo, no imperativo negativo, no conjuntivo, no futuro do conjuntivo, no infinitivo pessoal, etc. Para já não falar nos verbos defectivos e no negregado verbo haver, geralmente mal conjugado, não distinguindo as suas diferentes funções : como principal e como auxiliar.
Há até uma conhecida figura política, que já foi Ministro e Deputado da Nação várias vezes, que nunca atinou com este verbo. Nem tendo como sua correligionária uma reputada especialista na Língua logrou ultrapassar a deficiência gramatical. Passa até por ser considerado um bom comunicador.
Enfim, muito há que fazer neste campo e terão de ser os falantes do português, aqui ou em qualquer outra parte do mundo que o tenha como língua oficial ou de cultura, a defendê-lo, a cultivá-lo, começando desde logo por depurá-lo.
Quem julgarão que mais tem esse dever, senão estes ? Esperarão que sejam os espanhóis, os franceses ou outros povos a tomarem como sua essa tarefa ?
Estudemos, nós outros, Portugueses, Brasileiros, Angolanos, Moçambicanos, Guineenses, Cabo-Verdianos, São Tomenses, Indianos, Timorenses e Macaenses, todas as línguas que quisermos e cultivemos todas as que pudermos, mas não maltratemos e não desprezemos a nossa, a de Camões, de Camilo, de Eça, de Pessoa, de Torga, de Sofia, de Saramago, de Machado de Assis, de Euclides da Cunha, de Rui Barbosa, de Drummond de Andrade, de Craveirinha, de Luandino e de tantos, tantos outros que a honraram e a dignificaram para ela ser hoje aquilo que é : uma língua culta, nobre, dúctil, esbelta e formosa, que não teme comparações com as demais, para não dizer tanto como Rodrigues Lobo, que de tanto a enaltecer, de tanto amor, naturalmente exagerou. Mas, aqui também, mais vale querer por excesso que por defeito.
Voltarei certamente ao tema, porque o défice de debate é enorme.
AV_Lisboa, 8 de Dezembro de 2004
Também a RTP 1, no seu programa de debate semanal, «Prós e Contras», quis assinalar o acontecimento, anteontem, 2ª feira, escolhendo o mesmo tema para debate.
Logo no painel de participantes não estiveram inspirados, visto que nele não figurava um único verdadeiro estudioso da Língua, com trabalho significativo publicado. Alguns habituais lá se encontravam, desde o infalível Professor Eduardo Prado Coelho, que sempre aparece nestes certames mediáticos, até aos representantes das Instituições patrocinantes da Conferência, todos eles sem contribuições de relevo para o fenómeno linguístico, a não ser na dita qualidade representante.
Apenas um convidado da plateia fez uma intervenção interessante sobre a linguagem utilizada pelos jovens nas mensagens dos telemóveis. Mas mesmo aqui afloraram equívocos perigosos, porque muitos destes jovens não dominam ainda a norma da língua e, com aquela prática encorajada, podem ser levados a concluir que se trata de uma opção de escrita, legítima nas demais circunstâncias. Se ninguém os alertar, nem lhes moderar essa tendência, acabarão a praticar uma linguagem empobrecida, defeituosa e amputada, fora dos recursos do idioma, que nunca conhecerão.
Ninguém abordou com atenção a acção perniciosa dos jornalistas e locutores da Televisão, sobretudo, muito mais devastadora do que a dos seus colegas da Imprensa escrita, que, no entanto, não é despicienda, quando desrespeitam ostensivamente regras básicas gramaticais, como se estas tivessem já sido abolidas, só porque o seu cumprimento não é generalizado.
Deveria o esforço normativo concentrar-se principalmente na televisão, a começar pela pronunciação correcta das palavras, coisa que parece ocioso apontar, porque deveria ser obrigação corrente e resultar de um treino prévio aturado, até que os candidatos a locutores começassem a intervir na comunicação.
Deveriam os responsáveis da sua preparação insistir na boa dicção e no ritmo adequado de locução para que se entendesse claramente o que dizem e simultaneamente fazerem escola, criando um padrão normativo, como acontece nas grandes cadeias de comunicação, a BBC, por exemplo.
Já quando eu aprendi inglês, há uns aninhos, no Instituto Britânico, em Lisboa, os professores aconselhavam todos os alunos a ouvirem regularmente aquela estação, prestando particular atenção à articulação das palavras e à entoação que lhes davam os locutores, considerados como praticando um paradigma de língua a seguir por quem pretendesse aprender inglês britânico correcto. Por isso nos recomendavam a aquisição de um rádio, com sintonia de ondas curtas, para que ouvíssemos as emissões da BBC-World Service, como se de um elemento de estudo auxiliar se tratasse, tal como o dicionário ou a gramática.
Parece até absurdo que não haja essa mesma preocupação na TV portuguesa e tanto profissional revele tantas deficiências. Custaria certamente pouco, em face dos benefícios colhidos, contratar um provedor da língua portuguesa, que se encarregasse de corrigir os erros detectados nas intervenções dos locutores. A pouco e pouco, a TV estatal seria vista como um paradigma, servindo de referência a todas as outras estações e «educando o povo», função que poderia muito bem desempenhar, sem complexos de o assumir, neste âmbito.
De contrário, o que sucede é que ela deseduca o mesmo povo. E não cabe dizer que não é a educação a sua função primordial, porque se se recusar a esse desígnio, acabará por realizar o seu oposto. A escola fará o seu papel, mas a TV atinge todas as gerações, em simultâneo e a todo o instante, logo não se deverá prescindir da sua própria utilidade formativa. Não o fazer, por prurido de extrema isenção, é errado e constitui mais um enorme desperdício de meios que, com frequência, vemos praticar.
Ainda a este propósito, na 2ª feira, o jornal «Público» trazia uma frase atribuída a um participante na Conferência da Gulbenkian, professor universitário, autor de uma das comunicações apresentadas, que me deixou estupefacto.
Dizia ele, segundo a transcrição do jornal, que a crioulização da língua portuguesa era não só inevitável, como também enriquecedora. Não sei, evidentemente, o contexto em que o dito professor, Victor Aguiar e Silva, suponho, de seu nome, o terá dito e qual a sua intenção, mas julgo que, se não justificou as circunstâncias em que considera válida aquela afirmação, ajudou certamente a propagar a confusão.
A crioulização da Língua Portuguesa, em Portugal, a ocorrer, terá de ser combatida, por não ter justificação, dispondo o país de meios suficientes para impor uma norma escorreita, sem ter de aceitar deturpações, compreensíveis embora em povos não escolarizados, totalmente inaceitáveis em zonas do mundo em que se exigem níveis crescentes de escolaridade obrigatória, a que devem corresponder conteúdos de aprendizagem reais, ou não valeria a pena prolongar ou impor sequer a obrigatoriedade escolar.
Os erros e as corrupções da Língua não se eliminam aperfilhando-os. Pode ser mais cómodo para os praticantes da norma ou mais simpático para os que laboram no erro, mas não é uma resposta lógica, nem aceitável.
Mesmo para as comunidades africanas que aqui vivem, o esforço da correcta aprendizagem da Língua é sumamente vantajoso, porque promotor da sua integração. Só têm a ganhar falando um português padrão, correcto, depurado de erros. Isto não significa que deixem de utilizar os diversos crioulos, dentro de casa, entre os seus. Podem, evidentemente, continuar a fazê-lo, embora sem descurar a aprendizagem do português, para seu próprio benefício. Ou também será politicamente incorrecto defender isto ?
Ademais, quando se encontra um erro, linguístico ou outro, quando se reconhece o erro, o único caminho válido e sadio a tomar é corrigi-lo, não legalizá-lo ou admiti-lo como variante válida da norma correspondente, com o argumento de que a maioria já o pratica e não se consegue impor a correcção. É este mais um dos defeitos do pensamento moderno, politicamente correcto, que foge de lutar pelo cumprimento das normas. É sempre mais «popular» e cómodo absolver o erro, relativizá-lo, e tratá-lo em pé de igualdade com a sua correcção.
Vejam no que daria esta atitude se aplicada a uma disciplina científica, a Matemática, por exemplo. Será por isso que ela é tão «impopular», por não admitir sempre várias soluções para um problema e não contemporizar com o erro ?
Será a Matemática contrária ao «espírito democrático» ?
Será mesmo «reaccionária» ou «elitista» ou «conservadora» ou «dogmática» ?
Há aqui muitos equívocos a desfazer.
Bem sabemos que a Língua não se rege por critérios idênticos aos das disciplinas científicas e vai evoluindo incorporando também corrupções, mas não queiramos, por isso, desprezar o respeito das normas, das regras gramaticais, sob pena de instaurarmos o caos, deturpando rapidamente o idioma.
Do Latim ao Português se chegou, ao fim de muitas centúrias, até se estabelecer um idioma culto, com gramática própria, estabilizada. Não queiramos, no espaço de uma ou duas gerações, desfigurar o idioma, só porque não estamos para nos ralar com a imposição da Norma. Não nos antecipemos ao trabalho do tempo, que não tem de ser necessariamente favorável à corrupção.
E, sobretudo, que esta não aconteça por desleixo. Para relembrar, a propósito, um nosso clássico, António Ferreira, diria que se ela, a Língua Portuguesa, está agora :
................
baixa e sem louvor,
culpa é dos que a mal exercitaram,
esquecimento nosso e desamor.
Este tema é muito interessante e levaria longo tempo a debater, mesmo por pessoas não especialistas na matéria, com formação académica em área diversa. Porém, a Língua é de todos ; é um elemento da nossa cidadania e, nesta qualidade, todos somos responsáveis pela sua «saúde».
É pena que os especialistas não intervenham mais, fora dos redutos académicos. A situação de franca bandalheira em que caiu o uso do português é verdadeiramente deplorável, de há muitos anos para cá, e não cessa de piorar, o que é ainda mais preocupante.
Quase todo o bicho careta julga que se promove enxameando o discurso de termos estrangeiros, ingleses, por regra, muitas vezes com a desculpa de que não existem termos equivalentes no português. Só raramente isso é verdade, na maior parte delas, o que acontece é que as pessoas desconhecem os recursos da sua língua-mãe ou nem fazem um esforço de procurar as traduções correctas.
Trata-se de puro desleixo, aliado a fútil exibicionismo. As entidades responsáveis deveriam igualmente contrariar a mania de dar nomes estrangeiros a estabelecimentos comerciais, onde a presunção é evidente e deslocada.
De um momento para o outro, os Centros Comerciais passaram a Shopping Centers, os testes ou provas de condução passaram a test drives, os prazos ou calendários ou datas ou distribuição de tempo, a timimgs e outras futilidades pretensiosas que conspurcam a nossa linguagem e, acima de tudo, não se justificam, porque são quase sempre supérfluas, substituíveis com maior ou menor esforço.
Ninguém parece preocupar-se com isto, como aliás, pouca gente se preocupa com aquilo que representa a nossa identidade cultural. A nossa rádio quase não transmite música portuguesa, os estabelecimentos de diversão só põem música anglo-americana, os jovens já só se dignam cantar em inglês, americano, na sua maior parte, que, aliás, não dominam, como não dominam o próprio português, apesar de o «terem estudado» anos a fio. Muitos acabam licenciaturas sem dominarem a regência verbal. Será isto normal e inelutável ?
Vejam-se os erros frequentes no modo imperativo, no imperativo negativo, no conjuntivo, no futuro do conjuntivo, no infinitivo pessoal, etc. Para já não falar nos verbos defectivos e no negregado verbo haver, geralmente mal conjugado, não distinguindo as suas diferentes funções : como principal e como auxiliar.
Há até uma conhecida figura política, que já foi Ministro e Deputado da Nação várias vezes, que nunca atinou com este verbo. Nem tendo como sua correligionária uma reputada especialista na Língua logrou ultrapassar a deficiência gramatical. Passa até por ser considerado um bom comunicador.
Enfim, muito há que fazer neste campo e terão de ser os falantes do português, aqui ou em qualquer outra parte do mundo que o tenha como língua oficial ou de cultura, a defendê-lo, a cultivá-lo, começando desde logo por depurá-lo.
Quem julgarão que mais tem esse dever, senão estes ? Esperarão que sejam os espanhóis, os franceses ou outros povos a tomarem como sua essa tarefa ?
Estudemos, nós outros, Portugueses, Brasileiros, Angolanos, Moçambicanos, Guineenses, Cabo-Verdianos, São Tomenses, Indianos, Timorenses e Macaenses, todas as línguas que quisermos e cultivemos todas as que pudermos, mas não maltratemos e não desprezemos a nossa, a de Camões, de Camilo, de Eça, de Pessoa, de Torga, de Sofia, de Saramago, de Machado de Assis, de Euclides da Cunha, de Rui Barbosa, de Drummond de Andrade, de Craveirinha, de Luandino e de tantos, tantos outros que a honraram e a dignificaram para ela ser hoje aquilo que é : uma língua culta, nobre, dúctil, esbelta e formosa, que não teme comparações com as demais, para não dizer tanto como Rodrigues Lobo, que de tanto a enaltecer, de tanto amor, naturalmente exagerou. Mas, aqui também, mais vale querer por excesso que por defeito.
Voltarei certamente ao tema, porque o défice de debate é enorme.
AV_Lisboa, 8 de Dezembro de 2004
Comments:
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BRAVÍSSIMO! Também fico horrorizada com os erros grosseiros e o desconhecimento total de nossa Gramática pela maioria das pessoas, sejam elas quais forem. Bela comparação com a Matemática: 2+2=4. Em Português, ouço nas novelas, por exemplo: "Vamos se vestir!" e outras preciosidades. O que me deixa perplexa não é tanto o erro, em si, é a falta de preocupação com o correto. Eu também cometo erros (já levantei para corrigir texto meu, publicado no "Bisbilhotices", após ter encerrado tudo, porque encontrei uma falha no texto que imprimi), mas ESTOU PREOCUPADA EM COMETER CADA VEZ MENOR NÚMERO DE ERROS. Eu já ficaria feliz se, pelo menos, essa PREOCUPAÇÃO existisse mais freqüentemente. PARABÉNS pelo texto, foi um prazer lê-lo.
ABRAÇOS, Bisbilhoteira.
www.bisbilhotices.blogger.com.br
ABRAÇOS, Bisbilhoteira.
www.bisbilhotices.blogger.com.br
Excelente comentário sobre a necessidade de se cultivar o património precioso que é a língua portuguesa.
Tenho a opinião um tanto inusitada de que ainda será entre alguns membros da reduzida elite cultural brasileira que o portugues há de encontrar alguns de seus mais ferrenhos defensores. Explico-me. No Brasil a ligação que temos com o mundo culto é através desta língua européia que é o portugues. Fora dela cerca-nos a barbárie, não há alternativas. Salvar o portugues nestas terras americanas é quase como salvar a luz da consciencia. Claro está, nada garante que o portugues ou que a própria consciencia será salva entre nós. Comento apenas que há pessoas aqui que entendem a importancia desse esforço. Já em Portugal, pressuponho, cercadas de secular civilização, as pessoas talvez se permitam estarem menos atentas para os riscos que corre o idioma em que se expressou Pessoa. Em nenhum momento estou aqui a dizer que no Brasil efetivamente se fale melhor portugues do que na ex Metrópole. Pelo contrário. Há enormes deturpações e falta de cuidado. Apenas faço a conjectura de que pode haver mais preocupação entre alguns poucos brasileiros sobre o futuro do idioma do que se poderia normalmente esperar.
Tenho a opinião um tanto inusitada de que ainda será entre alguns membros da reduzida elite cultural brasileira que o portugues há de encontrar alguns de seus mais ferrenhos defensores. Explico-me. No Brasil a ligação que temos com o mundo culto é através desta língua européia que é o portugues. Fora dela cerca-nos a barbárie, não há alternativas. Salvar o portugues nestas terras americanas é quase como salvar a luz da consciencia. Claro está, nada garante que o portugues ou que a própria consciencia será salva entre nós. Comento apenas que há pessoas aqui que entendem a importancia desse esforço. Já em Portugal, pressuponho, cercadas de secular civilização, as pessoas talvez se permitam estarem menos atentas para os riscos que corre o idioma em que se expressou Pessoa. Em nenhum momento estou aqui a dizer que no Brasil efetivamente se fale melhor portugues do que na ex Metrópole. Pelo contrário. Há enormes deturpações e falta de cuidado. Apenas faço a conjectura de que pode haver mais preocupação entre alguns poucos brasileiros sobre o futuro do idioma do que se poderia normalmente esperar.
Para responder a este penúltimo comentário, que, suponho, oriundo do Brasil, precisaria de conhecer o correspondente endereço electrónico, vulgo «email».
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